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O choque das civilizações nos seus cabelos loiros



Quando vi seus cabelos loiros espalhados pela cama 
entristeceu-me pensar na partida. Você lá, a um toque de mim, 
e eu não podia. Seus longos fios me convidavam a um carinho.
Mas minha mão assustada recuou. 


E agora seja lá o que eu mire são seus longos fios loiros estendidos
pela cama, me chamando, que vejo. Quase os ouço pedindo meus dedos. 

Mas não. Eu não poderia. 
O cafuné poderia virar abraço, que poderia virar beijo, 
que poderia. Poderia? Não sei. E se você me odiasse? 
E se perguntasse o que eu queria? 
E se carregasse seu olhar de espanto e mistério que tanto 
me intriga? E se me expulsasse, jamais falasse comigo de novo?


Seu convite para visitá-la me comoveu. Fui, mesmo sabendo do
perigo de tamanha proximidade e da reprovação de tal 
comportamento entre os meus. Eu tinha de ver aquela com 
quem falo sem medo, para quem pergunto tudo. Minha tutora. 
Nada sei além do que me diz, do que leio, do que imagino. 
Ensina-me o amor teórico. Como se amor pudesse ser abstrato. 
Ele estava lá, concreto, demasiado integral naqueles seus filetes 
de sol me exigindo, me tentando.


E no entanto. No entanto eu não ousava tocá-los. 
Seria tão errado. Queria que fosse minha, mas não é possível: 
azeite e vinagre podem até resultar em um saboroso prato de 
salada, mas não formam uma família. Um deslize apenas e eu 
a perderia, me perderia, nunca mais teria aqueles cabelos de trigo, 
aqueles mesmos que conheço de cor e vejo, neste momento, 
estendidos na cama gritando por mim. 


Eu disse tutora, mas na verdade você está mais para marciana, 
um ser de fora da Terra. Talvez apenas uma mulher do futuro 
ou do passado. Mas certamente única. Minha vida está tão 
distante da sua assustadora liberdade feminina. 
Onde vivo, você bem sabe, as moças se escondem. 
Ninguém as vê pelas ruas: fios de cabelo, sentimentos, 
formas, palavras encobertos. 



Você me diz que tal comportamento é do século XIX, 
mas para mim é do XXI mesmo. Até conhecê-la eu nem
imaginava que poderia ser diferente. Há tão pouco veio você, 
com os temerários fios loiros, contanto a vida do lado de lá 
e querendo conhecer o lado de cá. E agora vejo-me rogando 
por Marte, desejando Marte, a sonhar com Marte. 
A Terra passou a ser tão chatinha sem seus cabelos. 



Ontem eles estavam espalhados na cama, me tragando. 
Você dormia, frágil, talvez apenas um gesto bastasse. 
Mulher cheia de verdades, decidida, independente. 
E eu um aprendiz de ET, relutando em abandonar a Terra. 

Queria tocá-los, cheirá-los, esfregá-los em meu rosto, beijá-los,
como caju maduro. Como eu ousaria macular seus espetaculares 
cabelos lisos com minhas mãos pecadoras?



Depressa, joguei minhas roupas na sacola, passei uma água no 
rosto, precisava correr dali. Você recebeu-me tão bem em sua
casa, guia da cidade e de vida. Eu precisava voltar a Terra antes
que a trocasse de vez por Marte, planeta proibido. 

Chorei ao vê-la alheia à minha aflição, com o que estaria sonhando
? Parece frágil quando dorme. Por mais que a personalidade 
independente me impressionasse foram suas imperfeições, 
desejos e carências que me fizeram desabar de vontade de 
proteger a dona dos cabelos loiros. Sim, ainda que aprendiz, 
sei que você, como toda mulher, aprecia um bom abrigo. 

Adoraria ser esse refúgio, mas seria impossível nos tornarmos 
um casal na Terra.



O mais difícil ao espiar pela sua porta foi evitar o toque proibido.
Evitar a consumação do pecado, como se o simples fato de 
eu sonhar com seus cabelos loiros nos meus lábios não fosse 
um pecado em si. Por mais que me esforce não consigo controlar
meus pensamentos, tampouco o sorriso ligeiro no canto esquerdo
da boca que tão mal disfarço. Com muita luta, consegui fugir dos
seus cabelos. Ou assim pensei ao fechar a porta devagarinho 
para não acordá-la.



Agora, de volta a Terra, no meu quarto escuro, tão distante 
dos longos fios loiros que adoro, só faço invocá-los. 
E nesse momento não há certo e errado. Não há convenção,
pecado, tradição ou choque das civilizações que faça
desaparecer esse lapso de felicidade nas sombras em que 
me encontro.  

 

L.  Pinsky 



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