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Cada dia é feito de infinitas possibilidades.
Há um milagre acontecendo a cada instante.
A cada fração de tempo a vida eclode,
Exuberante!
Porque tudo traz em si o seu contrário,
O seu avesso, o seu reverso,
Uma vida chega ao fim,
E, simultânea,
Outra aparece.
Lá onde o fim
Apenas o começo.
Porque nada é por si mesmo nem é sozinho,
A vida não cessa,
Transforma-se...
De tudo o que acontece à nossa volta,
Quase nada percebemos,
E pouco nos interessa.
Ignorantes,
Indiferentes à essência das coisas,
Às aparências
Nos acostumamos.
Desperdiçamos a maravilha
Que é fazer parte
Desse enigma impressionante.
Há muito que perdemos o olhar infante,
O êxtase do menino ao contemplar o oceano,
Nos reduzimos ao cotidiano,
Às banalidades,
Ao insignificante.
“O tempo que sobre a terra nos foi concedido”,
Patéticos, gastamos a explorar estandes,
A percorrer prateleiras
De supermercados,
Vitrines de lojas elegantes.
Esvaíram-se nossas manhãs
Sem ternura,
Sem amor,
Sem semeadura.
O solo, deixamos árido,
A amizade, desprezamos.
Nossa energia
Esbanjamos chorando.
“Tempos sombrios” – disse o poeta –
Aqueles dos quais não escapamos.
Assim acreditamos desfrutar a vida:
Praticando o anatocismo alucinante.
Construímos – racionais – os argumentos
Que explicam a fome e a guerra.
(Democracia é um discurso que escrevemos com sangue
ao demarcar nossos domínios sobre a terra).
E, distraídos,
Apenas seguimos o fluxo
Do estúpido progresso que inventamos,
Sem nos perguntar: “Por que?”
“Pra onde?”
O medo que sofremos se resume
À perda de nosso vil patrimônio.
Nossas crianças já ficaram velhas,
Não há mais sábios,
Não há mais amantes,
Mas – pobres de nós! – ainda temos
Automóvel,
Lipoaspiração,
Viagra,
Diamantes.
Porque queremos cada vez mais do que temos,
Não temos tempo de saber porquê queremos
E nem sabemos, na verdade, o quê queremos.
Um dia, fantasmas, partiremos...
Corpúsculos, seremos dissolvidos
E separados
– Partículas que somos –
Do todo a que um dia pertencemos,
Do “ser” que jamais compreendemos.
Em nossa curta,
Imprecisa existência,
Desprezível fração de segundos,
Simples piscar de olhos no universo,
Nunca soubemos
Que não havia outro observador,
Além de nós mesmos.
Brasília,
24 de agosto de 2006.
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